A vinculação aos cuidadores e os estilos parentais assumem especial relevância no comportamento e no desenvolvimento social e afetivo dos jovens. Segundo Bowlby (1969) a qualidade das ligações afetivas das primeiras relações de vinculação podem ter efeito na qualidade das relações que a criança estabelecerá ao longo da sua vida. Ao longo da adolescência ocorre a transição dos modelos de relação dos pais para os pares, sendo que os modelos internos dinâmicos reorganizam-se no seio das ligações afetivas com os adultos e são posteriormente transferidos para os pares (Bowlby, 1969). Assim, ocorre um processo de separação-individuação no qual há uma diminuição da dependência familiar permitindo uma maior autonomia e maior aproximação aos pares (Blos, 1996). Pertencer a um grupo de pares tornar-se importante a partir da adolescência, uma vez que o sentimento de inclusão num grupo desempenha um papel importante prevenindo a solidão e potenciando um bem-estar geral (Gallegos et al., 2022; Tomé et al., 2012a; Zhang et al., 2021).
As relações com os grupos de pares podem também ter um efeito negativo nos jovens, uma vez que poderão ser facilitadores do envolvimento em comportamentos de risco, particularmente quando atravessam vivências mais ansiogênicas (Dotson et al., 2022), nomeadamente no consumo de álcool (Tomé et al., 2012b). Face à relação com os pares importa destacar vários estudos que verificaram que as mulheres jovens apresentam relações com os pares de maior qualidade (Laghi et al., 2016; Raboteg-Saric & Sakic, 2014), particularmente de confiança, pela sua maior disponibilidade e abertura para o estabelecimento de relações e procura de proximidade (Wang & Hu, 2021).
Baumrind (1991) refere que os pais são o principal meio de aprendizagem no desenvolvimento de competências psicossociais e de estratégias para lidar com os conflitos contribuindo assim para o desenvolvimento afetivo e comportamental dos jovens. Os estilos parentais dizem respeito ao clima emocional no qual as práticas parentais se expressam, incluindo o tom de voz e os gestos, isto é, engloba as práticas parentais e todos os aspectos de interação. Os diferentes tipos de estilos parentais assumem um papel preponderante no ajustamento psicossocial dos jovens (Baumrind, 1966, 1991). De acordo com a perspetiva de Baumrind (1966), os estilos parentais dividem-se em três: o estilo permissivo caraterizado por um padrão não punitivo, ausência de controlo e de regras, tolerância parental no qual não existe suporte nem apoio. O estilo autoritário pautado pela exigência e pelo controlo excessivo, prevalece a obediência por poder, a restrição de autonomia, a autoridade e uma fraca afetividade com a criança. Por fim, o estilo autoritativo que traduz o afeto, apoio e cedência de autonomia aportada pelos pais, mas também considera a exigência e controlo/supervisão/ monitorização dos comportamentos dos filhos. No presente estudo o estilo autoritativo não foi usado, considerando-se a versão proposta por Robinson et al. (1995; adaptado por Nunes & Mota, 2018), do Parenting Styles & Dimensions Questionnaire: Short Version (PSDQ), onde o estilo democrático surge como o terceiro estilo em alternativa ao autoritativo, definido como mais próximo ao estilo permissivo todavia mais equilibrado pela presença de regras e limites, afetividade, autonomia, suporte emocional, comunicação, controlo, disciplina e respeito mútuo.
Os estilos parentais podem fazer a diferença na transição dos jovens para o ensino superior, sendo uma tarefa desenvolvimental significativa que pode constituir um fator de adversidade capaz de potenciar alterações a nível de saúde mental, e o desenvolvimento de comportamentos de risco (Dias et al., 2019; Dotson et al., 2022; Vizzotto et al., 2017). Durante a transição para a universidade, verifica-se que os jovens que apresentam um contexto familiar associado ao estilo parental democrático encontram-se mais preparados emocionalmente e adaptam-se melhor ao contexto académico (Granja & Mota, 2018). O estilo parental democrático e a qualidade da vinculação favorecem o desenvolvimento de relações interpessoais saudáveis e que capacita os jovens a ultrapassar vivências negativas (Evangelista et al., 2018; Temiz & Cõmert, 2018). A presença de uma autoestima e de um autoconceito positivos nos jovens são em parte explicados pela vivência dos jovens de contextos familiares pautados por um estilo parental democrático (Gallenos et al., 2022). Estudos verificaram que as mulheres tendem a perceber um estilo parental mais democrático de ambos os pais comparativamente com os rapazes (Granja & Mota, 2018; Kashahu et al., 2014). Por outro lado, os estilos parentais permissivos e autoritários parecem estar ligados a uma maior probabilidade dos jovens desenvolverem problemas de adaptação e de condutas autodestrutivas nomeadamente o consumo de álcool (Baumrind, 1991; Kenney et al., 2015; Mota & Assunção, 2020).
O consumo de álcool continua a ser um problema de saúde atual e com consequências, nomeadamente a nível psicológico e social dos jovens adultos. No estudo de Evangelista et al. (2018), verificou-se que o consumo de álcool nos estudantes universitários tem vindo a aumentar e a iniciar mais precocemente, predispondo os jovens a envolverem-se em outros comportamentos de risco. Neste caso os fatores de risco podem ser de ordem familiar como a presença de estilos parentais autoritários (Garcia et al., 2020; Kenney et al., 2015) ou permissivos (Reis & Oliveira, 2015), e sociais como a associação a pares com comportamentos desviantes (Ferreira et al., 2022; Yuksek & Solakoglu, 2016), a vinculação insegura com os mesmos (Dotson et al., 2022; McKay, 2015; Temiz & Cõmert, 2018), assim como a rejeição do grupo de pares (Brito et al., 2015; Filho & Teixeira, 2011). O estilo parental democrático pautado por um maior envolvimento, suporte, afeto e maior supervisão constitui um dos fatores protetores no que concerne o consumo de álcool (Balsa et al., 2018; Baumrind, 1991; Eiden et al., 2016; Mills et al., 2021; Zhen et al., 2021). Em termos de relações sociais, a qualidade da ligação aos pares na qual existe apoio, suporte e comunicação (Dagnoni & Garcia, 2014; Tomé et al., 2012a; Vizzotto et al., 2017), assim como ter amigos com comportamentos não-desviantes (Tomé et al., 2012b) constituem fatores protetores para o menor envolvimento com o álcool. McKay (2015) concluiu que os jovens expostos ao estilo parental democrático têm menor probabilidade de consumir álcool, mesmo após considerar o efeito do grupo de pares.
Existem várias razões pelas quais os jovens consomem bebidas alcoólicas, nomeadamente o motivo social associado à facilitação da interação social em contextos festivos, o motivo de conformidade é forma de se integrar num determinado grupo evitando a rejeição do jovem no grupo. O motivo por realce associado ao divertimento e à indução de afeto positivo, nomeadamente à sensação de bem-estar resultante do consumo de álcool, por último o motivo coping que está ligado a estratégias de fuga de emoções desagradáveis (Cooper, 1994).
Os estilos parentais exercidos com os filhos parecem ter um efeito no padrão de consumo e nas razões pelas quais os jovens consomem bebidas alcoólicas. A presença de estilos parentais negativos afeta o desenvolvimento de estratégias de coping adaptativas (Rubin et al., 2009), e associam-se a uma menor autoestima e mais problemas de integração social dos jovens (Baumrind, 1991). Jovens com uma perceção positiva das suas relações com as figuras parentais, nomeadamente a presença de um estilo parental democrático, apresentaram menores níveis nos diversos motivos de consumo de álcool (Labrie & Sessoms, 2012).
Além do efeito dos estilos parentais, as cara-terísticas pessoais como o sexo parecem fazer a diferença nas razões de consumo de álcool, sendo que os jovens do sexo masculino tendem a apresentar uma maior diversidade de razões para consumirem álcool (Loose & Acier, 2017). A saída de casa aquando do ingresso para o ensino superior é outra variável de interesse, sendo que estudantes deslocados apresentam tendencialmente maiores consumos de álcool (Jalilan et al., 2015; Rocha et al., 2021). O facto de existir um novo contexto com mais responsabilidades e maiores níveis de stress, existe um maior consumo de álcool como estratégia de coping (Galvão et al., 2017; Rodrigues et al., 2014).
A relação existente entre o risco de consumo e os motivos de consumo de álcool tem vindo a ser estudada, todavia, é visível a falta de consistência dos resultados (Read et al., 2003). Verifica-se a existência de estudos que concluíram que jovens com maiores riscos de consumo de álcool tendem a consumir álcool como forma de enfrentar vivências negativas, isto é, como estratégia de coping (Duroy et al., 2017). Por outro lado, o estudo de Maphisa e Young (2018) concluiu que o consumo de maior risco se associa a razões sociais e de realce. Para Brito et al. (2015) a presença de alienação aos pares parece aumentar os níveis de consumo de álcool por motivo de conformidade, no sentido de procura de maior inclusão no grupo.
Nesta medida, embora a literatura relacione a importância dos estilos parentais e da qualidade da relação com os pares no desenvolvimento de comportamentos de consumo de álcool, o presente estudo pretende colmatar a relação entre estas variáveis e a inconsistência sobre a relação com os consumos de risco, os motivos de consumo, e a sua associação à transição e vivências dos jovens no contexto universitário em Portugal.
Objetivos
A presente investigação tem como objetivo analisar o efeito preditor dos estilos parentais e da vinculação aos pares nos motivos para o consumo de álcool em estudantes universitários, bem como analisar as diferenças face às variáveis sociodemográficas, nomeadamente o sexo, a saída do seio familiar no ingresso para o ensino superior e o risco de consumo de álcool.
Método
Participantes
Participaram 1.044 estudantes de uma universidade do Norte de Portugal, dos quais 767 (73.5 %) do sexo feminino e 277 (26.5 %) do sexo masculino com idades compreendidas entre os 18 e 25 anos (M= 19.78; DP = 1.68). Os participantes foram selecionados de forma aleatória mediante aceitação de participação, depois do estudo ser apresentado e divulgado na universidade, além disso frequentavam licenciatura ou mestrado de diferentes áreas de estudo. Cerca de 842 (80.7 %) dos jovens saíram de casa quando ingressaram para a universidade e 195 (18.7 %) permaneceram na residência familiar. Relativamente à relação dos participantes com os pares, 227 (21.7 %) sentem que não têm amigos próximos e 817 (78.3 %) consideram ter amigos próximos.
Instrumentos
Foi utilizado um questionário sociodemográfico de forma a obter dados pessoais (e.g., sexo, idade, saída ou não de casa no ingresso para o ensino superior, se sente que tem amigos próximos).
O Parenting Styles & Dimensions Questionnaire: Short Version (PSDQ) (Robinson et al., 1995; adaptado por Nunes & Mota, 2018), permitiu avaliar a perceção dos jovens relativamente aos estilos parentais. Divide-se em 32 itens, com respostas tipo Likert de 1 (Nunca) a 5 (Sempre). Os itens estão divididos em sete subescalas que se agrupam em três dimensões (democrático, autoritário e permissivo). O estilo democrático (apoio e afeto (item 1,7,12,14,27), regulação (item 5,11,25,29,31) e a cedência de autonomia (item 3,9,18,21,22). O estilo autoritário (coerção física (item 2,6,19,23), a hostilidade verbal (item 13,16,23,30) e a punição (item 4,10,26,28). Por fim o estilo permissivo (indulgência (item 8,15,17,20,24)). De acordo com a sugestão de adaptação do instrumento segundo Nunes e Mota (2018) o item 23 ajustou melhor na dimensão regulação do que na dimensão hostilidade, sugestão que se adequou ao presente estudo pelo que se procedeu à alteração. Relativamente às análises psicométricas do presente estudo os valores de alfa de Cronbach para a figura paterna são de .89 e para a figura materna de .84. Relativamente à análise da consistência interna das subescalas foram para pai e mãe respectivamente: afeto e apoio: .90/.86; regulação: .87/.83; cedência de autonomia: .88/.83; coerção física: .66/.71; hostilidade verbal: .56/.57; punição: .58/.57 e indulgência: .57/.56. Relativamente às análises fatoriais confirmatórias os resultados obtidos foram para o pai (xi2 (443) = 1833.255;p < .001; xi 2 /gl = 4.138; CFI = .909; NFI = .883; SRmR = .078; RmSEA = .055) e para a mãe (xi2 (443) = 1674.703; p < .001; xi2/ gl = 3.780; CFi = .902; NFI = .872; SRmR = .071; RmSEA = .052).
O Inventory of Peer and Parental Attachment (IPPA) (Armsden & Greenberg, 1987; adaptado por Ferreira & Costa, 1998), permitiu avaliar a qualidade das relações de vinculação aos pares. É constituído por 25 itens divididos em três dimensões: confiança (item 5,6,8,12,13,14,15,19,20,21), comunicação (item 1,2,3,7,16,17,24,25) alienação e (item 4,9,10,11,18,22,23). As respostas são do tipo Likert que varia de 1 (discordo totalmente) a 6 (concordo totalmente), ressaltando que o item 5 é um item invertido. O instrumento revelou uma elevada fiabilidade, sendo o alfa de Cronbach de .90 para a dimensão confiança, .88 para a comunicação e .78 para a alienação. Quanto à análise fatorial confirmatória os valores apresentam índices de ajustamento adequados (xi2 (268) = 1710,854; p < .001; xi 2 /gl = 6.384; CFI= .896; NFI = .880; srmr = .0516; RmSEA = .072).
O Drinking Motives Questionnaire - Revised (DMQ-R) (Cooper, 1994; adaptado por Martins et al., 2016), foi usado no sentido de avaliar os motivos que levam os jovens a consumirem bebidas alcoólicas. Divide-se em quatro dimensões: o social (item 3,5,11,14,16), o realce (item 7,9,10,13,18), o coping (itens 1,4,6,17,15) e o de conformidade (itens 2,8,12,19,20). As respostas são dadas numa escala do tipo Likert que varia de 1 (nunca/ quase nunca) a 5 (quase sempre/sempre).
Relativamente aos valores da consistência interna os valores de alfa de Cronbach foram de .88 para a dimensão social, .90 para realce, .86 para coping e .71 para conformidade. Quanto à análise fatorial confirmatória os resultados apresentam índices de ajustamento adequados (xi2 (160) = 1108,042; p < .001; xi 2 /gl = 6.925; CFI= .927; NFI= .916; SRmR = .0785; RmSEA = .075).
O Alcohol Use Disorders Identification Test -(AUDIT) (Saunders et al., 1993; adaptado por Cunha, 2002), permitiu avaliar os diferentes tipos de consumo de álcool. Foi utilizada a pontuação total do instrumento, ou seja, a pontuação dos 10 itens (0 a 40 pontos), sendo que o intervalo de 0 a 7 é de abstinência/baixo risco, de 8 a 15 é consumo de risco, de 16 a 19 é um consumo nocivo e superior a 20 é considerado consumo de dependência. As respostas são dadas numa escala do tipo Likert que varia de 0 a 4. A escala total apresenta um alfa de Cronbach de .91 e índice de ajustamento adequados (xi2 (33) = 113,046;p <.001; xi 2 /gl = 3.426; CFI = .987; NFI = .981; SRmR = .023; RmSEA = .048).
Procedimento
O protocolo foi aprovado pela Comissão de Ética Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro tendo sido posteriormente realizados os pedidos por escrito a cada Presidente de Escola. A recolha de dados ocorreu em contexto de sala de aula com a presença da investigadora, tendo sido transmitidos de forma breve os objetivos de estudo, os pressupostos da confidencialidade e o caráter voluntário da participação. Solicitou-se a cada participante a assinatura do Consentimento Livre e Esclarecido para a recolha dos dados que foram recolhidos de forma aleatória em diversos cursos e ciclos de estudos. A recolha ocorreu num único momento, evidenciando o caráter transversal do estudo.
Estratégias de análise de dados
Utilizou-se o programa estatístico Statistical Package for Social Sciences (SPSS, versão 23). Foi testado o tamanho da amostra através do G*Power 3.1.9.4., considerando a tipologia de análises prevista no estudo, com um tamanho de efeito D = .5, nível de significância .05 e um poder de .95, prevendo um mínimo de 176 participantes. Após serem assegurados procedimentos de limpeza da amostra e os pressupostos da normalidade procedeu-se à análise dos dados através de testes paramétricos, ressaltando que foram considerados valores de significância de p < .05 (Field, 2005). Em seguida, analisou-se a consistência interna dos instrumentos através do alfa de Cronbach e procedeu-se às análises confirmatórias através do programa AMOS (versão 23). Realizou-se a análise diferencial através do Teste-t e da MANOVA, com o objetivo de analisar a existência de diferenças entre as variáveis sociodemográficas e os instrumentos. Efetuaram-se as análises de predição, através das regressões múltiplas hierárquicas de forma a analisar a predição existente entre a variável dependente e as variáveis independentes, tendo sido criada variáveis dummy para as variáveis sexo e saída de casa aquando do ingresso para o ensino superior.
Resultados
Risco de consumo de álcool
Os resultados referentes ao risco de consumo de álcool demonstraram que 121 jovens (11.6 %) apresentam um baixo consumo/abstinência, 515 (49.3 %) um consumo de risco, 239 (22.9 %) um consumo nocivo e 169 (16.2 %) um consumo de dependência.
Análises de variância dos estilos parentais, vinculação aos pares e motivos de consumo de álcool
No que respeita a análise diferencial entre a variável vinculação aos pares e sexo, verificam-se diferenças estatisticamente significativas entre os jovens do sexo masculino e feminino ao nível da comunicação entre pares [t(1042) = 5.172, p < .001], confiança aos pares [t(546.263) = 2.372, p = .018] e da alienação aos pares [t(1042) = -2.806, p = .005].
Relativamente à variável estilo parental paterno e sexo, verificam-se diferenças estatisticamente significativas em três dimensões, sendo essas três pertencentes ao estilo autoritário: coerção física [t(528.491) = -3.548, p < .001], hostilidade verbal [t(1042) = -3,408, p = .001] e punição [t(445.354) = -2.497, p = .013]. No que diz respeito à análise diferencial entre o estilo parental materno e o sexo, verificam-se diferenças estatisticamente significativas em cinco dimensões: o afeto e apoio [t(1042)=2.899, p = .004], a cedência de autonomia [t(1042) = 2.110, p = .035], a coerção física [t(403283) = -3.100, p = .002], a hostilidade verbal [t(1042) = -2.546, p = .011] e a punição [t(449381) = -2.315, p = .021]. No que diz respeito à análise de variância da variável motivos do consumo de álcool em função do sexo, verificam-se diferenças estatisticamente significativas uma vez que os jovens do sexo masculino relatam em todas as dimensões valores mais elevados obtendo para o motivo social [t(452869) = -5.720, p < .001], para o realce [t(439322) = -5.020, p <.001], para o coping [t(437 306) = -2.848, p = .005] e para a conformidade [t(360.684) = -4 499,p < .001] (Tabela 1).
Tabela 1 Análise diferencial da vinculação aos pares, dos estilos parentais e dos motivos de consumo de álcool em função do sexo
Variable | Sexo | M ± DP | IC 95 % | Direção das diferenças |
---|---|---|---|---|
Vinculação aos pares | ||||
Comunicação |
|
4.80±.76 4.53±.70 | [.172; .370] | 1>2 |
Confiança |
|
5.05±.73 4.94±.64 | [.019; .202] | 1>2 |
Alienação |
|
2.25±.79 2.41±.73 | [-.256; -.050] | 1<2 |
Estilo parental - Pai | ||||
Coerção física |
|
1.09±.26 1.17±.35 | [-.126; -.036] | 1<2 |
Hostilidade |
|
2.19±.85 2.39±.78 | [-.314; -.085] | 1<2 |
Punição |
|
1.54±.56 1.64±.62 | [-.189; -.026] | 1<2 |
Estilo parental - Mãe | ||||
Afeto e apoio |
|
4.01±.91 3.83±.85 | [.059; .304] | 1>2 |
Cedência de autonomia |
|
3.82±.85 3.70±.81 | [.009;.239] | 1>2 |
Coerção física |
|
1.11±.30 1.19±.39 | [-.131; -.029] | 1<2 |
Hostilidade |
|
2.36±.88 2.52±.81 | [-.272; -.035] | 1<2 |
Punição |
|
1.56±.55 1.66±.61 | [-.189; -.023] | 1<2 |
Motivos de consumo de álcool | ||||
Social |
|
2.12±1.00 2.55±1.09 | [-.577; -.282] | 1 <2 |
Realce |
|
1.85±.97 2.23±1.11 | [-.525; -.230] | 1 <2 |
Coping |
|
1.54±.76 1.71±.87 | [-.284; -.052] | 1 <2 |
Conformidade |
|
1.10±.24 1.21±.38 | [-.159; -.062] | 1 <2 |
Relativamente à análise diferencial entre a variável vinculação aos pares face aos jovens que saíram de casa quando do ingresso para o ensino superior não existem diferenças estatisticamente significativas sendo que para a dimensão confiança aos pares o resultado foi [t (1035) = .454, p = .650], para a comunicação entre pares [t (1035) = .397, p = .692] e a alienação aos pares [t(1035) = .5 1 0, p = .610]. Quanto ao estilo parental paterno, verificam-se diferenças estatisticamente significativas face à variável saída de casa dos jovens, nomeadamente na regulação [t(1035) = 2.253, p = .024] e cedência de autonomia [t (1m5) =2.165, p = .031]. Relativamente à variável referente ao estilo parental materno verificam-se diferenças estatisticamente significativas face aos jovens que saíram de casa, nomeadamente na dimensão regulação [t(1035) = 2.336, p = .020] e cedência de autonomia [t(1035) = 2.363, p = .018]. Relativamente aos motivos de consumo de álcool face aos jovens que saíram de casa no ingresso para o ensino superior verificam-se diferenças significativas na dimensão social [t(1035)=2.540, p = .011], realce [t(321121)=3.431, p = .001] e coping [t (329.765)= 2.380, p = .018] (Tabela 2).
Tabela 2 Análise diferencial dos estilos parentais e dos motivos de consumo de álcool em função da saída de casa no ingresso ao ensino superior
Variable | Saída de casa | M ± DP | IC 95 % | Direção das diferenças |
---|---|---|---|---|
Estilo parental - Pai | ||||
Regulação | 1-Sim | 3.33±1.02 | [.024; .343] | 1>2 |
2-Não | 3.15±1.03 | |||
Cedência de autonomia | 1-Sim | 3.57±.98 | [.016; .323] | 1>2 |
2-Não | 3.40±1.01 | |||
Estilo parental - Mãe | ||||
Regulação | 1-Sim | 3.58±.91 | [.027; .310] | 1>2 |
2-Não | 3.41±.91 | |||
Cedência de autonomia | 1-Sim | 3.82±.03 | [.026;.286] | 1>2 |
2-Não | 3.66±.88 | |||
Motivos de consumo álcool | ||||
Social | 1-Sim | 2.27±1.05 | [.048; .372] | 1>2 |
2-Não | 2.06±1.00 | |||
Realce | 1-Sim | 2.00±1.04 | [.109; .403] | 1>2 |
2-Não | 1.74±.91 | |||
Coping | 1-Sim | 1.61±.81 | [.023; .247] | 1>2 |
2-Não | 1.47±.69 |
Quanto à análise diferencial entre a variável vinculação aos pares face ao risco de consumo de álcool não existem diferenças estatisticamente significativas, sendo que para a dimensão confiança o resultado obtido foi [f(3.1040) = .733, p = .533, η2 = .002], para a comunicação [f (3.1040) = .833, p = .476, η2 = .002] e para a alienação [f(3.1040) = 1.126, p = .338, η2 = .002].
Todavia, as análises multivariadas demonstram a existência de diferenças estatisticamente significativas do estilo parental paterno face ao risco de consumo de álcool [f(3.1040) = 2.025, p = .004, η2 = .013], nomeadamente na dimensão hostilidade verbal [f(3.1040) = 7.894, p = .004, η2 = .022], punição [f(3.1040) = 6.396, p < .001, η2 = .018] e indulgência [F(3.1040) = 4.556, p = .004, η2 = .013]. Relativamente ao estilo parental materno existem diferenças estatisticamente significativas face ao risco de consumo de álcool [f(21.3108) = 2.647, p < .001, η2 = .018], nomeadamente na dimensão afeto e apoio [f(3.1040) = 2.707, p = .044, η2 = .008], coerção física [f(3.1040) = 3.480, p = .015, η2 = .010], hostilidade verbal [f(3.1040) = 8.184, p < .001, η2 = .023], punição [f(3.1040) = 8.294, p < .001, η2 = .023] e indulgência [f(3.1040) = 6.788, p <.001, η2 = .019]. Por fim, no que respeita aos motivos de consumo em função do risco de consumo de álcool verificaram-se diferenças estatisticamente significativas em todas as dimensões [f(12.3117) = 52.374, p < .001, η2 = .168], sendo social [f(3.1040) = 258.089, p < .001, η2 = .427], realce [f(3.1040) = 253.546, p < .001 η2 = .422], de coping [f(3.1040) = 125.172, p < .001, η2 = .265] e conformidade [f(3.1040) = 15.769, p < .001 η2 = .044] (Tabela 3).
Tabela 3 Análise diferencial dos estilos parentais e dos motivos de consumo de álcool em função do risco de consumo de álcool
Variable | Risco de consumo de álcool | M ± DP | IC 95 % | Direção das diferenças |
---|---|---|---|---|
Estilo parental - Pai | ||||
Hostilidade | 1-Abstinência/baixo risco | 2.15±.89 | [2.00; 2.30] | 2<1<3<4 |
2-Consumo de risco | 2.14±.82 | [2.07; 2.22] | ||
3-Consumo nocivo | 2.37±.80 | [2.27; 2.48] | ||
4-Dependência | 2.44±.85 | [2.31; 2.56] | ||
Punição | 1-Abstinência/baixo risco | 1.53±.55 | [1.43; 1.63] | 2<1<3<4 |
2-Consumo de risco | 1.51±.55 | [1.46; 1.56] | ||
3-Consumo nocivo | 1.60±.57 | [1.53; 1.67] | ||
4-Dependência | 1.72±.65 | [1.63; 1.81] | ||
Indulgência | 1-Abstinência/baixo risco | 1.58±.64 | [1.47; 1.68] | 1<2<3<4 |
2-Consumo de risco | 1.65±.59 | [1.60; 1.70] | ||
3-Consumo nocivo | 1.73±.59 | [1.65; 1.80] | ||
4-Dependência | 1.81±.65 | [1.72; 1.90] | ||
Estilo parental - Mãe | ||||
Afeto e apoio | 1-Abstinência/baixo risco | 4.06±.92 | [3.90; 4.22] | 4<3<1<2 |
2-Consumo de risco | 4.02±.90 | [3.94; 4.09] | ||
3-Consumo nocivo | 3.89±.91 | [3.77; 4.00] | ||
4-Dependência | 3.84±.82 | [3.71; 3.98] | ||
Coerção física | 1-Abstinência/baixo risco | 1.06±.21 | [1.00; 1.12] | 1<2<3<4 |
2-Consumo de risco | 1.12±.31 | [1.10; 1.15] | ||
3-Consumo nocivo | 1.15±.36 | [1.11; 1.19] | ||
4-Dependência | 1.18±.41 | [1.13; 1.23] | ||
Hostilidade | 1-Abstinência/baixo risco | 2.29±.90 | [2.14; 2.44] | |
2-Consumo de risco | 2.31±.87 | [2.24; 2.38] | 1<2<3<4 | |
3-Consumo nocivo | 2.48±.79 | [2.37; 2.59] | ||
4-Dependência | 2.65±.86 | [2.52; 2.78] | ||
Punição | 1-Abstinência/baixo risco | 1.58±.58 | [1.48; 1.68] | 2<1<3<4 |
2-Consumo de risco | 1.52±.54 | [1.47; 1.57] | ||
3-Consumo nocivo | 1.61±.56 | [1.53; 1.68] | ||
4-Dependência | 1.77±.62 | [1.68; 1.85] | ||
Indulgência | 1-Abstinência/baixo risco | 1.67±.61 | [1.56; 1.78] | 1<2<3<4 |
2-Consumo de risco | 1.73±.61 | [1.68; 1.79] | ||
3-Consumo nocivo | 1.82±.61 | [1.74; 1.90] | ||
4-Dependência | 1.95±.69 | [1.86; 2.05] | ||
Motivos de consumo | ||||
Social | 1-Abstinência/baixo risco | 1.08±.28 | [.94;1.22] | 1<2<3<4 |
2-Consumo de risco | 1.90±.80 | [1.84;1.97] | ||
3-Consumo nocivo | 2.78±.91 | [2.68;2.88] | ||
4-Dependência | 3.31±.84 | [3.19;3.43] | ||
Realce | 1-Abstinência/baixo risco | 1.05±.24 | [.91;1.19] | 1<2<3<4 |
2-Consumo de risco | 1.55±.71 | [1.49;1.62] | ||
3-Consumo nocivo | 2.45±.95 | [2.35;2.55] | ||
4-Dependência | 3.10±.95 | [2.98;3.22] | ||
Coping | 1-Abstinência/baixo risco | 1.04±.16 | [.92;1.17] | 1<2<3<4 |
2-Consumo de risco | 1.35±.57 | [1.29;1.41] | ||
3-Consumo nocivo | 1.85±.81 | [1.77;1.94] | ||
4-Dependência | 2.32±.97 | [2.22;2.43] | ||
Conformidade | 1-Abstinência/baixo risco | 1.03±.15 | [.98;1.08] | 1<2<3<4 |
2-Consumo de risco | 1.10±.26 | [1.08;1.13] | ||
3-Consumo nocivo | 1.15±.30 | [1.11;1.18] | ||
4-Dependência | 1.25±.40 | [1.20;1.29] |
Papel preditor dos estilos parentais e da vinculação aos pares nos motivos de consumo de álcool
Procedeu-se à realização de análises de regressão múltipla hierárquica para avaliar o efeito preditor dos estilos parentais e da vinculação aos pares nos motivos de consumo de álcool. Foram realizadas análises independentes para pai e mãe, uma vez que existia controlo e perda de efeito quando da introdução das duas variáveis em simultâneo. Na análise de regressão múltipla face ao motivo de consumo de álcool social, verifica-se que no primeiro modelo (estilo parental paterno) nove variáveis apresentam uma contribuição significativa (p < .05) enquanto preditoras do motivo de consumo de álcool social, cuja a sua apresentação se encontra por ordem decrescente de importância: sexo (masculino) (β = .179), confiança (β = .156), afeto e apoio (β = -.135), alienação (β = .115), punição (fi = .106), hostilidade (fi = .101), saída de casa (β = -.080), indulgência (β = .073) e por fim coerção física (β = -.066). Relativamente ao segundo modelo (estilo parental materno), verificam-se oito variáveis com contribuição significativa enquanto preditoras do motivo social, encontrando-se as mesmas por ordem decrescente de importância: sexo (masculino) (β = .170), confiança (β = .162), alienação (β = .130), afeto e apoio (β = -.112), indulgência (β = .109), hostilidade (β = .087), punição (β = .081) e saída de casa (β = -.078) (Tabela 4).
Tabela 4 Regressões múltiplas hierárquicas para os motivos de consumo de álcool: social, realce, coping e conformidade

Nota. b, SE e β para um nível de significância dep < .05.
Bloco 1 - sexo (dummy); idade; saída de casa (dummy); Bloco 2 - dimensões da vinculação aos pares (IPPA); Bloco 3 - dimensões do estilo parental paterno e materno (PSDQ- pai/PSDQ-mãe).
Quanto à dimensão realce da escala dos motivos de consumo de álcool, verifica-se que no primeiro modelo (estilo parental paterno) seis variáveis apresentam uma contribuição significativa (p < .05) enquanto preditoras do motivo de consumo de álcool realce, cuja a sua apresentação se encontra por ordem decrescente de importância: sexo (masculino) (β = .158), afeto e apoio (β = -.149), confiança (β = .152), punição (β = .113), alienação (β = .111) e saída de casa (β = -.100). Quanto ao segundo modelo (estilo parental materno), verificam-se sete variáveis com contribuição significativa enquanto preditoras do motivo realce, encontrando-se as mesmas por ordem decrescente: sexo (masculino) (β = .149), afeto e apoio (β = -.137), confiança (β = .130), alienação (β = .120), punição (β = .100), saída de casa (β = .098) e indulgência (β = .086) (Tabela 4).
Na dimensão coping da escala relativa aos motivos de consumo de álcool, verifica-se que no primeiro modelo (estilo parental paterno) quatro variáveis apresentam uma contribuição significativa (p < .05) enquanto preditoras do motivo de consumo de álcool coping, cuja a sua apresentação se encontra por ordem decrescente de importância: alienação (β = .211), comunicação (β = -.118), punição (β = .100) e sexo (masculino) (β = .082). Quanto ao modelo referente ao estilo parental materno constata-se que cinco variáveis apresentam uma contribuição significativa, encontrando-se apresentadas por ordem de importância: alienação (β = .221), comunicação (β = .111), hostilidade (β = .101), sexo (β = .079) e indulgência (β = .075) (Tabela 4).
Por fim, na dimensão conformidade da escala dos motivos de consumo de álcool, verifica-se no modelo da figura paterna que quatro variáveis apresentam uma contribuição significativa: alienação (β = .226), sexo (masculino) (β = .162), punição (β = .092) e indulgência (β = .077). Quanto às contribuições das dimensões independentes do modelo materno, verifica-se que três variáveis apresentaram um contributo estando as mesmas apresentadas por ordem decrescente de importância: alienação (β = .220), sexo (β = .152) e indulgência (β = .088) (Tabela 4).
Discussão
O presente estudo teve como objetivo geral testar o efeito dos estilos parentais e da vinculação aos pares nos motivos para o consumo de álcool em jovens universitários. De acordo com os objetivos específicos propostos, a análise das variáveis sociodemográficas, aponta para a existência de diferenças significativas entre as dimensões da vinculação aos pares em função do sexo, na qual as jovens de sexo feminino apresentam maiores níveis de comunicação e confiança com os pares comparativamente com o sexo masculino. Por sua vez, verificam-se diferenças significativas na dimensão alienação aos pares face ao sexo, no qual os jovens do sexo masculino apresentam valores mais elevados do que as jovens do sexo feminino. Assim, as mulheres parecem ter uma melhor qualidade relacional com os pares. Face a este resultado as jovens do sexo feminino recorrerem mais aos pares como fonte de suporte emocional comparativamente com jovens do sexo masculino, estando mais disponíveis para a partilha e a proximidade emocional (Granja & Mota, 2018; Laghi et al., 2016; Raboteg-Saric & Sakic, 2014), e o desenvolvimento de competências interpessoais focalizadas na comunicação e confiança (Wang & Hu, 2021).
No que diz respeito às dimensões do estilo parental paterno verificam-se diferenças estatisticamente significativas face ao sexo, nomeadamente nas dimensões referentes ao estilo autoritário (coerção física, hostilidade verbal e punição), na qual os jovens do sexo masculino apresentam valores mais elevados nas três dimensões comparativamente com as jovens do sexo feminino. Relativamente ao estilo parental materno face ao sexo, verificam-se diferenças estatisticamente significativas no qual jovens do sexo feminino apresentam valores mais elevados nas dimensões relativas ao estilo democrático (afeto/apoio e cedência de autonomia) e valores mais baixos nas dimensões relativas ao estilo parental autoritário (coerção física, hostilidade verbal e punição) comparativamente com os jovens do sexo masculino. Deste modo, verifica-se que os jovens do sexo masculino tendem a perceber as suas figuras paternas como mais autoritárias, na medida em que tende a haver maior externalização nas relações e menores níveis de conformidade por parte dos rapazes. Kashahu et al. (2014), corroboram os presentes dados com um estudo realizado com pais, onde observam que a figura do pai tende a ser vista como autoritária comparativamente com a figura materna, e ainda os estilos parentais para com os rapazes tendem a ser mais autoritários comparados com as mulheres. Granja e Mota (2018), num estudo realizado com jovens universitários destacam também que jovens do sexo feminino apresentam uma percepção mais positiva dos estilos parentais, e consequentemente uma menor percepção dos estilos negativos (autoritário e permissivo) comparado com os jovens do sexo masculino. Por fim, existem diferenças estatisticamente significativas entre os motivos de consumo de álcool (social, realce, coping e conformidade) face ao sexo, no qual o sexo masculino apresenta valores mais elevados nos quatro motivos de consumo de álcool. Deste modo, os rapazes apresentam uma maior diversidade de motivos de consumo de álcool que poderá ser explicado por vários fatores. Os rapazes tendem a apresentar níveis mais baixos de satisfação com a vida em comparação com as mulheres, o que dificulta a adaptação académica (Temiz & Cõmert, 2018) e potencialmente a procura de um refúgio através do consumo de álcool. Além disso, Casanova et al. (2020) apontam que os estudantes do sexo masculino tendem a mostrar níveis mais baixos de autoconfiança e gestão do stress, podendo apresentar mais dificuldades associadas à transição para a universidade. De acordo com os resultados obtidos no presente estudo, os jovens do sexo masculino poderão tender para a procura de maior exteriorização, e consequentemente procura de apoio no contexto social, e valorização dos motivos de realce, pela necessidade de se adaptarem a situações de adversidade (Loose & Acier, 2017; Vizzotto et al., 2017).
As análises permitiram verificar a existência de diferenças estatisticamente significativas no que respeita os estilos parentais paternos e maternos face à saída de casa dos jovens quando do ingresso para a universidade. Verifica-se que os jovens que saíram de casa apresentam valores mais elevados nas dimensões regulação e cedência de autonomia em ambas as figuras parentais. A entrada para o ensino superior acarreta inúmeros desafios, nomeadamente o afastamento familiar em alguns casos, em que o processo de adaptação é mais facilmente conseguido quando o jovem percebe as suas relações com as figuras parentais como disponíveis, responsivas e acolhedoras (Dias et al., 2019; Granja & Mota, 2018; Mills et al., 2021; Vizzotto et al., 2017). Zhen et al. (2021) suportam este resultado num estudo com uma amostra de 215 jovens universitários, onde verificaram que o apoio dos pais moderava o stress associado às mudanças relativas à pandemia COVID-19, destacando a ligação com os pais na adaptação aos desafios da transição para o contexto universitário. Gallegos et al. (2022), com uma amostra de 501 jovens universitários, concluíram também que a perceção da qualidade da relação com as figuras parentais assume relevância no processo de separação-individuação dos jovens adultos, particularmente aquando da gestão do stress relativo à pandemia COVID-19, e a transição para o contexto universitário. Nesta medida, o presente resultado destaca a importância da existência de estilos parentais democráticos na autonomização necessária aquando do ingresso no ensino superior.
No que respeita a diferenças dos motivos de consumo de álcool face à saída de casa quando do ingresso para a universidade, verificam-se diferenças estatisticamente significativas entre os motivos de consumo de álcool social, realce e por coping que se revelam superiores quando os jovens saíram de casa. O presente resultado poderá ser explicado pelo facto dos jovens procurarem uma maior autonomia e independência nas relações e pela necessidade de iniciar esta gestão da própria individualidade no contexto social (Jalilan et al., 2015). Esta questão poderá colocar-se particularmente no nosso estudo face aos jovens que atravessaram a transição para o contexto universitário. Götz et al. (2021) sugerem que a conscienciosidade está associada a um maior autocontrolo, responsabilidade e autodisciplina, e que geralmente se verifica em estudantes mais velhos, ao invés dos mais novos que tendencialmente denotam mais extroversão. Rocha et al. (2021) verificam no seu estudo que existe um maior consumo de álcool por parte de estudantes que vivem fora da residência familiar, particularmente nos primeiros anos no contexto universitário, por estarem mais voltados para a procura de novas experiências e a valorização do aspeto social. Alguns estudos apontam também que o fato de existir um novo contexto com mais responsabilidades e maiores níveis de stress, o motivo de consumo de álcool como estratégia de coping é o mais elevado nos estudantes universitários deslocados (Galvão et al., 2017; Rodrigues, et al., 2014).
No que concerne à vinculação aos pares, não se verificaram diferenças significativas entre jovens que saíram ou permaneceram na casa dos pais, esta questão pode estar correlacionada com a maior consolidação da relação desses jovens com seus pais. Nesta medida, a grande maioria dos jovens da presente amostra são deslocados e apontam ter amigos, podendo manter as relações com alguma proximidade. Face à intensidade de vivências de similitude e reciprocidade (Blos, 1996), alguns destes jovens poderão ter consolidado relações no contexto universitário. Pertencer a um grupo de pares no contexto universitário torna-se relevante, uma vez que o sentimento de inclusão num grupo desempenha um papel importante prevenindo a solidão e potenciando sentimentos positivos e bem-estar geral (e.g., Dotson et al., 2022; Zhang et al., 2021).
Relativamente às diferenças estatisticamente significativas existentes entre o estilo parental paterno face ao risco de consumo de álcool, verifica-se que a presença de um estilo parental paterno autoritário e permissivo se relaciona com um elevado risco de consumo de álcool, no qual a presença de hostilidade verbal, punição e indulgência se associam a um consumo de dependência. No que concerne ao estilo parental materno, verificam-se diferenças estatisticamente significativas face ao risco de consumo de álcool, havendo um menor risco de consumo na presença de afeto e apoio e um maior risco de consumo na presença de um estilo parental autoritário (coerção física, hostilidade verbal e punição) e permissivo (indulgência). Deste modo, a presença de estilos parentais negativos pela sua menor responsividade e sentido de apoio poderá conduzir os jovens a um sentimento de insegurança, que associado às tarefas e desafios da transição para o contexto universitário parece estar ligada a um maior consumo de álcool (Baumrind, 1991; Garcia et al., 2020; Kenney et al., 2015; Mota & Assunção, 2020). Em contrapartida, a presença de afeto e apoio sugere maior possibilidade de procura de ajuda, e potencia menores níveis de insegurança e solidão (Gallegos et al., 2022; Zhang et al., 2021), estando relacionada a menores níveis de consumo de álcool (e.g., Eiden et al., 2016). Este resultado era esperado tendo em conta a presença de um estilo parental democrático, que facilita a comunicação e o desenvolvimento de maior segurança, autonomia e responsabilidade nos jovens. Por outro lado, os estilos parentais autoritários e permissivos que recriam, pela falta de flexibilidade na relação ou pela ausência na perceção de cuidados e apoio pessoal, o sentimento de maior vulnerabilidade nos jovens conduzindo-os a enveredar por comportamentos de risco enquanto forma de fuga emocional (Mota & Assunção, 2020; Reis & Oliveira, 2015).
Relativamente às análises de diferenças dos motivos de consumo de álcool face ao risco de consumo de álcool, verificam-se que jovens com motivos de consumo de álcool relacionados com o social, realce, coping e conformidade apresentam valores mais elevados de risco de consumo de álcool ao nível da dependência. A presença de dependência do álcool em jovens em contexto universitário implica consumir bebidas alcoólicas frequentemente e em grandes quantidades, o que poderá relacionar-se com alguma dificuldade em lidar com eventos ansiogênicos (Zhen et al., 2021), ou situações de pressão social, e necessidade de aceitação no grupo (Brito et al., 2015; Maphisa & Young, 2018). Nesta circunstância, a motivação de consumo poderá estar associada a aspetos de adaptação e conformidade, assim como na necessidade de afirmação social ou fuga face a relações com os pares menos adaptativas (Duroy et al., 2017; Loose & Acier, 2017).
Assim, embora o presente estudo não tenha verificado diferenças significativas da vinculação aos pares face ao risco de consumo, julgamos que este resultado poderá deixar em aberto a possibilidade de nesta amostra de jovens, outras variáveis como os estilos parentais, ou os motivos de consumo, assumam maior preponderância, não ficando patente nesta relação o nível de consumo. Todavia, julgamos oportuno destacar que a literatura reforça a posição de que na presença de uma qualidade de vinculação aos pares pouco satisfatória, pautada por alienação (McKay, 2015), assim como a associação a um grupo de pares cujo consumo de álcool é frequente (Ferreira et al., 2022; Tomé et al., 2012a; Yuksek & Solakoglu, 2016), criam-se fatores de vulnerabilidade que podem levar os jovens a ter um consumo de álcool mais elevado. Por sua vez, a presença de uma vinculação aos pares segura parece fornecer um suporte para a minimização do consumo de álcool (Dagnoni & Garcia, 2014; Tomé et al., 2012a), e ter amigos cujos comportamentos não são de risco (Tomé et al., 2012b), mostram-se como fatores protetores importantes na diminuição do consumo de álcool como estratégia de coping (Oldfield et al., 2016).
Por último, a análise de predição realizada através da regressão múltipla hierárquica vem corroborar alguns dos resultados até aqui discutidos, pelo que o sexo masculino se mostra preditor face aos motivos de consumo social, realce, coping e conformidade. De fato, tal como discutimos antes, os jovens de sexo masculino são mais suscetíveis de enveredar por caminhos desviantes, sempre que o seu processo adaptativo ao contexto universitário não esteja bem consolidado (Temiz & Cõmert, 2018). Ao mesmo tempo, fatores relacionados com a maior tendência à extroversão no sexo masculino, e procura de suporte no exterior, poderão explicar que os motivos de consumo de álcool se correlacionem com estratégias de fuga, face à gestão do stress, e medo de rejeição (Galvão et al., 2017; Rodrigues et al., 2014). Também são os jovens que saíram de casa quando da entrada na universidade que mais apresentam motivos de consumo social e realce. Como antes destacado, a necessidade de experimentação constitui um processo integrante da autonomia dos jovens, pelo que a dinâmica social assume um palco relevante com práticas e rituais que podem conduzir os jovens no contexto universitário a motivações de consumo por necessidade de pertença, integração e destaque social (Rocha et al., 2021).
No que concerne à vinculação aos pares, jovens com maiores níveis de confiança na relação com os pares predizem mais motivos de caráter social e de realce para o consumo de álcool, o que poderá correlacionar-se com a criação de ligações de partilha e similitude conduzindo a uma estratégia adaptativa dos jovens. Por outra parte, a dimensão alienação na relação poderá constituir um fator de desadaptação (Brito et al., 2015; Dotson et al., 2022), e em conformidade com os resultados observados sobre a predição nos motivos de consumo sociais, realce, coping e conformidade. Este resultado era esperado uma vez que quando existe uma boa relação com os pares a necessidade de se integrar através do consumo de álcool, e o medo da rejeição são situações menos prováveis (Dagnoni & Garcia, 2014; Tomé et al., 2012a), comparativamente a quando existe insegurança ou alienação na relação com os pares. Por outro lado, tal como tem vindo a ser discutido, o fato de existir alienação aos pares pode levar a um maior consumo, seja como estratégia de lidar com os eventos negativos, medo de rejeição ou necessidade do sentido de pertença (Ferreira et al., 2022; Yuksek & Solakoglu, 2016).
Os estilos parentais revelaram um efeito significativo face aos motivos de consumo, pelo que quando controladas as variáveis anteriores, observa-se que o estilo democrático (apoio e afeto) prediz negativamente os motivos de consumo por razões sociais e realce. Destaca-se na presente amostra que a percepção de apoio e afeto no estilo parental democrático de ambas figuras parentais sugere mais estabilidade nas dimensões relacionais, mais segurança e sentido de suporte, conduzindo os jovens a menor necessidade de procurar evidência através do consumo de álcool por motivos sociais ou realce (e.g., Eiden et al., 2016). O estilo parental autoritário, pautado por coerção física apenas para o pai; punição e hostilidade, prediz motivos de consumo social; e estilo parental autoritário apenas com punição predizem motivos de consumo de realce (pai e mãe), coping e conformidade (pai). Nesta medida, a perceção de um estilo parental pautado pela exigência e pelo controlo excessivo, onde prevalece a obediência por poder, a restrição de autonomia, a autoridade e uma baixa afetividade, particularmente face à figura paterna sugere que os jovens desenvolvam perceções inseguras sobre a sua imagem e a relação com os demais (Clark et al., 2015). A insegurança nas relações pode conduzir os jovens a uma necessidade apelativa por realce, ou ao invés disso conduzir à inércia e ao conformismo, que se espelha na fuga através dos consumos de álcool (Wang & Hu, 2021). O estilo permissivo (indulgência) por sua vez prediz positivamente a motivação de consumo de álcool por motivo social, realce, coping e conformidade. Note-se que a Indulgência se caracteriza por um padrão não punitivo, ausência de controlo e de regras, tolerância parental no qual não existe suporte nem apoio (Baumrind, 1991). Nesta medida, a vivência de uma relação não responsiva e ausente por parte das figuras parentais poderá traduzir-se em jovens inseguros e imaturos, onde o consumo de álcool poderá constituir uma forma de integração e notoriedade, ou de conformidade, compondo uma estratégia desadaptativa de coping (Garcia et al., 2020).
Implicações práticas, limitações e pistas futuras
Este estudo permitiu um maior conhecimento na área da parentalidade e dos motivos de consumo de álcool dos jovens em contexto universitário, o que poderá ajudar no desenvolvimento de campanhas preventivas. O presente estudo reforça a importância do estilo parental democrático e da vinculação segura aos pares no que diz respeito ao menor envolvimento dos jovens em comportamentos de risco, particularmente numa fase de transição significativa.
Quanto às limitações do estudo, destaca-se o caráter transversal do estudo, a extensão do protocolo, a limitação da área geográfica, e a população ser maioritariamente composta por jovens do sexo feminino. Poderá constituir-se uma limitação o desconhecimento de dados face ao absentismo dos alunos que consomem álcool, pelo que futuramente esta variável deverá ser controlada. Além disso, as caraterísticas psicométricas do instrumento que avaliou os estilos parentais, não ajustaram em todas as dimensões. Quanto a pistas futuras, seria relevante optar por um estudo de caráter longitudinal e contemplar uma população e faixa etária mais abrangentes. De forma a obter dados objetivos seria pertinente obter relatos das figuras parentais quanto às suas perceções do estilo parental. Por outro lado, seria relevante incluir outras variáveis em estudo como a personalidade, o bem-estar e a adaptação académica.